Há muitas conceituações para ludicidade, algumas
contradições e até confusões. Não é meu objetivo discuti-las aqui, e sim
apresentar uma possibilidade de compreender o lúdico. Para traçar os contornos
de como o considero, aproprio-me da conceituação de alguns estudiosos desse
tema.
O primeiro aspecto a destacar é que as atividades lúdicas não se restringem ao
jogo e à brincadeira, mas incluem atividades que possibilitam momentos de
prazer, entrega e integração dos envolvidos. Segundo Luckesi(2), são aquelas que
propiciam uma experiência de plenitude, em que nos envolvemos por inteiro,
estando flexíveis e saudáveis. Para Santin(3), são ações vividas e sentidas, não
definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, povoadas pela
fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias urdidas
com materiais simbólicos. Assim elas não são encontradas nos prazeres
estereotipados, no que é dado pronto, pois, estes não possuem a marca da
singularidade do sujeito que as vivencia.
Na atividade lúdica, o que importa não é apenas o produto da atividade, o que
dela resulta, mas a própria ação, o momento vivido. Possibilita a quem a
vivencia, momentos de encontro consigo e com o outro, momentos de fantasia e de
realidade, de ressignificação e percepção, momentos de autoconhecimento e
conhecimento do outro, de cuidar de si e olhar para o outro, momentos de vida,
de expressividade.
Uma aula com características lúdicas não precisa ter jogos ou brinquedos. O que
traz ludicidade para a sala de aula é muito mais uma “atitude” lúdica do
educador e dos educandos. Assumir essa postura implica sensibilidade,
envolvimento, uma mudança interna, e não apenas externa, implica não somente
uma mudança cognitiva, mas, principalmente, uma mudança afetiva. A ludicidade
exige uma predisposição interna, o que não se adquire apenas com a aquisição de
conceitos, de conhecimentos, embora estes sejam muito importantes. Uma
fundamentação teórica consistente dá o suporte necessário ao professor para o
entendimento dos porquês de seu trabalho. Trata-se de ir um pouco mais longe
ou, talvez melhor dizendo, um pouco mais fundo. Trata-se de formar novas
atitudes, daí a necessidade de que os professores estejam envolvidos com o
processo de formação de seus educandos. Isso não é tão simples, pois, implica
romper com um modelo, com um padrão já instituído, já internalizado.
A escola tradicional, centrada na transmissão de conteúdos, não comporta um
modelo lúdico. Por isso é tão frequente ouvirmos falas que apoiam e enaltecem a
importância do lúdico estar presente na sala de aula, e queixas dos futuros
educadores, como também daqueles que já se encontram exercendo o magistério, de
que se fala da importância da ludicidade, se discutem conceitos de ludicidade,
mas não se vivenciam atividades lúdicas. Fala-se, mas não se faz. De fato não é
tão simples uma transformação mais radical pelas próprias experiências que o
professor tem ao longo de sua formação acadêmica.
Como bem observa Tânia Fortuna, em uma sala de aula ludicamente inspirada, convive-se com a aleatoriedade, com o imponderável; o professor renuncia à
centralização, à onisciência e ao controle onipotente e reconhece a importância
de que o aluno tenha uma postura ativa nas situações de ensino, sendo sujeito
de sua aprendizagem; a espontaneidade e a criatividade são constantemente
estimuladas(4).
Podemos observar que essas atitudes, de um modo geral, não
são, de fato, estimuladas na escola. Como afirmei em um texto recente, “as
atividades lúdicas permitem que o indivíduo vivencie sua inteireza e sua
autonomia em um tempo-espaço próprio, particular. Esse momento de inteireza e
encontro consigo mesmo gera possibilidades de autoconhecimento e de maior
consciência de si”(5).
Considero como lúdicas as atividades que propiciem a vivência plena do
aqui-agora, integrando a ação, o pensamento e o sentimento. Tais atividades
podem ser uma brincadeira, um jogo ou qualquer outra atividade que possibilite
instaurar um estado de inteireza: uma dinâmica de integração grupal ou de
sensibilização, um trabalho de recorte e colagem, uma das muitas expressões dos
jogos dramáticos, exercícios de relaxamento e respiração, uma ciranda,
movimentos expressivos, atividades rítmicas, entre outras tantas
possibilidades. Mais importante, porém, do que o tipo de atividade é a forma
como é orientada e como é experienciada, e o porquê de estar sendo realizada.
Ela deve permitir que cada um possa se expressar livre e solidariamente, que as
couraças, bloqueios que se estabelecem, possam ser flexibilizadas e que haja um
maior fluxo de energia.
A espontaneidade do indivíduo, sua autoexpressão e criatividade são bloqueadas
quando ocorre a contenção da bioenergia, isto é, da energia vital que circula
em nosso organismo através da corrente sanguínea e de outros fluidos
energéticos como a linfa e os fluidos intracelulares. Mas este fluxo energético
pode ser restabelecido através da mobilização da energia estagnada. Para que
este processo seja entendido, trago algumas questões básicas da teoria reicheana,
que nos permitem a compreensão dos bloqueios e desbloqueios da energia, que
constituem a base para uma prática educativa lúdica.
Bibliografia
2 LUCKESI, Cipriano Carlos. Educação, ludicidade e prevenção
das neuroses futuras: uma proposta pedagógica a partir da Biossíntese. In:
LUCKESI, Cipriano Carlos (org.) Ludopedagogia – Ensaios 1: Educação e
Ludicidade. Salvador: Gepel, 2000.
3 SANTIN, Silvino. Educação física: da opressão do
rendimento à alegria do lúdico. Porto Alegre: Edições EST/ESEF – UFRGS, 1994.
4 FORTUNA, Tânia Ramos. Formando professores na Universidade
para brincar. In: SANTOS, Santa Marli P.dos (org.). A ludicidade como ciência.
Petrópolis: Vozes, 2001, p.116.
5 PEREIRA, Lucia Helena P. Ludicidade: algumas reflexões.
In: PORTO, Bernadete de Souza (org.). Ludicidade: o que é mesmo isso? Salvador:
Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação
em Educação, Gepel, 2002, p.17.
6 REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. Problemas
econômico-sexuais da energia biológica. Tradução de Maria da Glória Novak. 19
ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p.256.
7 REICH, Wilhelm. Análise do caráter. Tradução de Ricardo
Amaral do Rego. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
8 REICH, 1995, p. 245-246.
9 KELEMAN, Stanley. Anatomia emocional: a estrutura da
experiência. Tradução de Myrthes Suplicy Vieira. 3 ed. São Paulo: Summus, 1992,
p.77.
10 Motilidade corporal é o fluxo interno, diferente do
movimento, que se manifesta externamente; “é a vitalidade do padrão pulsátil, a
força e a intensidade das pulsações dos órgãos que dão energia e identidade
pessoal” (KELEMAN,1992, p.42).
11 REICH, 1995, p.255.
12 LOWEN, Alexander. Medo da vida. Tradução de Maria Sílvia
Mourão Netto. São Paulo: Summus, 1989, p.81-82.
13 LOWEN, 1989, p.114.
14 LOWEN, 1989.
15 LOWEN, Alexander. Prazer. Uma abordagem criativa da vida.
Tradução de Ibanez de Carvalho Filho. 6 ed. São Paulo: Summus, 1984.
16 LOWEN, 1984, p.29.
17 BOADELLA, David. Correntes da vida. Uma introdução à
Biossíntese. Tradução de Cláudia Soares Cruz. 2 ed. São Paulo: Summus, 1992,
p.11.
FONTE:
http://www.fw2.com.br/clientes/artesdecura/REVISTA/corpo_terapia/bioexpressao.htm